quarta-feira, janeiro 15

desaba(fo)

Postado por Ariana Fernandes às 20:56 0 comentários
Diante de mim, mulher, não sou.
Não quero ser.
És pai da menina que fui
do sono que nunca velaste
e das lágrimas que nunca enxugastes.

És pai da dor da menina que fui.

Ah, como queria ser de novo menina em teus braços esporádicos
e me abandonar admirando tuas mãos.

Uma gaita
Uma bicicleta
Um cachorro
Um sorriso
preso em uma fotografia
no rosto de uma bailarina
que abraçava o pai.

Ninguém te ensinou os caminhos, bem sei
mas não podemos passar a vida
nos escondendo da dor.
Nem deixar um rastro de dor
por todos os nossos caminhos
Pois os fantasmas do passado
ah, meu bem, esses nunca nos abandona.

A entrega é necessária
E é essa a beleza dos encontros.
E eu tô cansada de pisar em ovos.

Obrigada, pai!
Por tudo que não me destes.

quarta-feira, janeiro 1

a esperança equilibrista

Postado por Ariana Fernandes às 20:05 2 comentários


Eu comprei flores e acendi incensos
Eu pus música
E assisti o vento convidar minhas cortinas para dançar
o Bolero de Ravel
E eu sai a dançar também
Com o sol e as estrelas
Com a lua
Mas não consegui alcançar a leveza.

Por mais que eu me estique
Por mais que eu corra
Por mais que eu chore
Ela se afasta de mim
E o que sobra é um nó[s]
bem no meio do sossego.

Eu vivo nesse lugar de coisas incríveis
que não acontecem. 
Enquanto isso, as coisas como são
acontecem sem mim.

Porque ele é esse compilado de complexos paradoxos
E tem o coração do tamanho dos meus sonhos
Com praia, cerca branca e jardins.

Mas por mais que eu me estique
Por mais que eu corra
Por mais que eu chore
Não consigo tocar.

E as flores, e os incensos
E o vento, e as cortinas
Nada disso tem sentido
Se não tem ele.

sexta-feira, novembro 15

Condicional

Postado por Ariana Fernandes às 17:51 0 comentários
Ou, desabafo de fim de tarde em um feriado reflexivo

Triste da criatura em que
a felicidade reside em uma bolinha verde.

E eu sigo
enrolada como meus cabelos
porque o medo não paralisa
o pulo
no abismo
desconhecido.

Uma tentativa
(frustrada)
pela facilidade de não ser-sentir.

Respiração no meu
(fone de)
ouvido.
Um milhão de promessas
E a ansiedade pelo
(primeiro)
encontro.


O que eu queria, o que eu fazia,o que mais? ♫

sábado, novembro 9

sangue

Postado por Ariana Fernandes às 16:47 1 comentários
Meu pai vai ter uma filha

Meu pai
que nunca me teve
vai ter uma filha.
Vai acompanhar uma gestação
que nunca foi a minha.
Vai ver nascer aquela
que nunca fui eu.
Vai aplaudir os primeiros passos
que nunca foram os meus.
Vai ouvir as primeiras palavras
que nunca foram as minhas.
'pa-pá'.
Vai acalentar pesadelos
que nunca soube serem meus.
Vai segurar a bicicleta
que nunca aprendi a andar.
Vai secar lágrimas
que nunca escorreram pelo meu rosto.
Vai dar conselhos melhores do que
"Você não tem amigos.
Vá na minha que é a boa"

Meu pai
que nunca foi meu pai
vai, agora, ser pai.

Isso quer dizer que
eu vou ter uma irmã...
Eu vou ter uma irmã!
Que me importam as babaquices
e infantilidades
e cobranças
e magoas
e ausências?
Eu vou ter uma irmã, porra!

Peço a Deus
e aos astros,
aos santos
e a todos os orixás,
e a qualquer ser mistico, e divino,
e supremo, e maior que eu,
que me permita ter, de fato,
uma irmã!

Eu quero rolar na grama
com um coração que faz parte do meu.
Eu quero ensinar as caretas mais legais.
Eu quero segurar na mão pra atravessar a rua.
E eu quero que seja a mim que ela confesse
os mais vis segredos adolescentes.
Porque eu sou irmã, e cúmplice.
E eu vou amar
muito
porque eu já  amo.

Meu pai vai ser pai.
Mas se ele vacilar de novo,
ela vai ter uma irmã!

quinta-feira, outubro 10

Prece

Postado por Ariana Fernandes às 16:56 1 comentários
Deus
você conhece a minha capacidade de sonhar
mesmo acordada.

Eu fecho meus olhos e vejo.
A minha própria imagem
sentada em minha cama
com um livro no colo
lendo historias pra alguém
que eu não vi o sorriso ainda
que sequer tem sexo
mas que eu já amo tanto.

Eu consigo me ver passeando pelo parque
com o dobro do meu peso
aquelas roupas folgadas
a mão na barriga
cantarolando cantigas
de um mundo bom.

Eu sinto a alegria me invadir
quando uma mãozinha
tão linda e perfeita
segura o meu dedo
e aquele ser, que ainda é tão pequeno
se alimenta e se fortalece
da seiva que meu próprio corpo fábrica.

O mau-humor tão habitual
ao ser acordada inesperadamente
é substituído por um profundo afeto
ao ver uma criança
com cara de sono e lençol na mão
tão assustada por um pesadelo
se enfiar na minha cama.
E eu repito baixinho:
"Passou, meu anjo.
A mamãe tá aqui,
você tá em casa
e vai ficar tudo bem"

Meu coração se aperta
por meu bebê
já não ser um bebê
e eu engulo o ciume
e acalento suas primeiras dores adolescentes
suas primeiras lágrimas de amor.

É Domingo
meu rosto já não é mais o mesmo
minha casa já  não é mais a mesma
a mesa está posta
passei a manhã preparando
a sala, a mesa, o coração
a família da minha família
a minha família
vem almoçar.
Minha casa se encher de alegrias
e eu passo a tarde a estragar meus netos
e ensinar-lhes novas caretas.

Deus
Você é meu amigo, porra!
E eu tento, apesar de
todas as agruras da vida
ser o melhor que eu posso...

Deus
Por favor

Deus,
não me faz seca.
Desértica.

Deus,
Eu imploro

Deus
Não tire minha capacidade de gerar!


quarta-feira, outubro 9

declaração

Postado por Ariana Fernandes às 23:36 0 comentários
O medo tem alguma utilidade, mas a covardia não.
 Mahatma Gandhi


Não é quem ele é, mas quem ele representa.
Foi por ele que eu desci ao inferno
Foi por ele que eu descobri que faz frio no fundo do poço.
Foi por ele, e só por ele, que eu bebi, e fumei, e chorei, e gritei.
Mas foi a ele, e só a ele, que eu amei!

O homem de lata ganhou um coração
e descobriu seus humanos sentimentos.
O homem de lata ta feliz,
e na fotografia, me sorri
pleno (?)
O homem de lata não existe mais.
E eu não sei mais qual é o personagem
Embora eu conheça o homem
e os olhos.
Eu não quero mais ser aquela
personagem, pessoa menina.
Mas eu já não sou.

Quero desbravar cervejas
e rasgar sorrisos
e colher conversas gostosas
Mas eu tenho medo.
Eu tenho medo...
"Agora. Mas tem que ser agora!"
Tornei a ouvir
e tremi, como se fosse ontem.
E eu não fui.
E eu sou agora personagem,
o personagem que não foi.
E ficou, parado, vendo as letrinhas subirem.
E o livro ser fechado.

E eu tenho medo.

Medo...

segunda-feira, setembro 23

[e]ternamente cultivado

Postado por Ariana Fernandes às 01:09 0 comentários
O coração é terra que ninguém vê. E dói.
Dói se sentir tão pequena,
quando sei que existem inúmeros mundos dentro de mim.
Invisível.
Quando eu era pequena e me sentia triste gostava brincar de ser invisível.
E me trancava no guarda-roupa.

E aí agora eu era a princesa do reino das águas-claras.
E aí agora eu era uma guerreira medieval.
E aí agora eu era uma super-heroína, com capa e tudo.

Agora o guarda-roupa encolheu.
Não cabe nem minhas roupas, imagine os meus sonhos...

Um dia me perguntaram por que eu me calo, e eu disse:
não, é só um grito.
Um anjo me falou que você se acostuma e vai vivendo.
É só?

A maneira como suportamos o vazio é o que determina se merecemos que ele se encha...